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Medicina Caseira

Postado 21/09/2006 em Saúde

A medicina tradicional é parte da cultura de todos os povos do mundo e tem sido recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como a pedra angular para a construção da APS (Atenção Primária à Saúde), que no Brasil é conhecida como ”Ações Básicas de Saúde“.

Com muita razão, a OMS está incentivando os governos de todos os países do mundo, onde as condições de saúde de suas populações são precárias, a implantar programas de saúde que diminuam os custos mediante métodos e técnicas sociais aceitáveis. Uma das principais contribuições da medicina tradicional para a saúde tem sido o descobrimento do valor das Plantas Medicinais: “Salvem plantas que salvam vidas” é a palavra de ordem para a proteção destas espécies.

Nesse sentido, as plantas medicinais estão se constituindo a base de novos núcleos terapêuticos, primeiro porque aqueles utilizados até hoje já não respondem de uma forma eficaz às necessidades humanas: como exemplo, pode ser citada a ineficácia das drogas químicas usadas atualmente nos tratamentos do câncer e demais patologias degenerativas. Em segundo lugar, porque tem crescido a exigência dos consumidores por produtos naturais e menos tóxicos, o que torna as plantas uma opção certa para o futuro.

PRINCIPAIS ASPECTOS NO USO DAS PLANTAS MEDICINAIS

O uso das plantas medicinais não deve ser encarado unicamente do ponto de vista terapêutico, mas tão importantes quanto estes são os aspectos antropológico, pedagógico, econômico e ecológico.

ASPECTO ANTROPOLÓGICO

O trabalho comunitário tem como sujeitos sociais pessoas que vivem na marginalidade do processo sócio-econômico e cultural, sentindo-se desvalorizadas, por ser pobres, analfabetas, mulheres e muitas vezes negras, perdidas da sua própria identidade, mas por outro lado com uma riqueza muito grande do que aprenderam na vida e que lhe ajuda a viver.

Através do resgate do seu “saber” e “saber fazer” no processo saúde - doença, que é o próprio saber das plantas medicinais, resgata-se não só a planta medicinal (instrumental terapêutico), como também a identidade da pessoa, que irá fortalecer sua auto-estima.

Na medida que as pessoas verbalizam seus “saberes” é que elas exercitam o seu “poder”. É no exercício do “poder” que elas resgatam sua “auto-estima”. Nesse sentido, fortalecer e empoderar pessoas é promover saúde.

ASPECTO PEDAGÓGICO

Inspirado na pedagogia do oprimido de Paulo Freire, o processo educativo para a saúde deve partir do “saber do povo” para se chegar ao “saber do técnico”. A planta medicinal é o núcleo pedagógico de educação popular para a saúde. Primeiro se aprende a conhecer a planta e a indicação terapêutica com o povo e depois se torna mais fácil disponibilizar o saber do técnico, que é a relação de causa-efeito das doenças. Só a partir desse momento é que se viabiliza a possibilidade do trabalho de prevenção das doenças. Assim, o processo educativo deve ser uma relação dialógica entre educador e povo.

ASPECTO ECONÔMICO

O problema dos medicamentos é traduzido não só pela ausência pura e simples destes nos locais de necessidade, mas também pela distância que separa o preço do medicamento do orçamento minguado das famílias miseráveis, tornando inacessível o seu consumo. No Brasil, só recentemente, foi obrigado o uso dos genéricos.

Assim, num programa de saúde convencional, os gastos com o item “Medicamentos” podem chegar a um terço ou até a metade do valor total do programa, tornando-o muito caro. Por isso é importante sua substituição por alternativas saudáveis e economicamente viáveis, como o uso de Plantas Medicinais.
No entanto, é essencial ressaltar que, nas patologias da APS, as plantas têm um papel muito importante, mas não se exclui a necessidade do uso dos medicamentos alopáticos, sendo fundamental que haja uma Política de Cesta Básica de Medicamentos, para permitir o acesso da população a eles.

ASPECTO ECOLÓGICO

Segundo especialistas da OMS, a cada hora uma espécie de planta desaparece do planeta. É muito importante que se implementem ações concretas antes que a humanidade perca esse manancial terapêutico que a natureza deu e continuará dando se o homem passar a ter uma atitude mais harmônica com a natureza.
Não por acaso, na reunião internacional da ECO-92 se levou em conta que:

  • as Plantas Medicinais são amplamente utilizadas por milhões de pessoas em todo o planeta e têm demonstrado sua eficácia para o tratamento de muitas doenças;
  • elas representam um recurso muito importante para a nossa saúde;
  • são um patrimônio cultural incalculável para cada um dos povos que as utilizam;
  • são, desta forma, parte da biodiversidade cultural e biológica do planeta Terra.

Nesta reunião da ECO-92, foi tirada uma declaração e propostas de ação das ONG’s em relação as Plantas Medicinais no Fórum Global.

Nesse sentido, a proposta das ONG’s é promover a criação de Bancos de Germoplasma Vivo (hortas de plantas medicinais), localizados nas mesmas comunidades e administrados por elas; promover sua aplicação na APS como estratégia centrada na participação; incentivar a autonomia das comunidades mediante uma adequada divulgação e capacitação.

ASPECTO TERAPÊUTICO

O uso terapêutico das Plantas Medicinais deve ser orientado para que a planta tenha maior eficácia sem provocar efeitos colaterais. Por isso, é importante agregar ao saber empírico os conhecimentos produzidos cientificamente, para validação e patenteamento das mesmas, evitando a bio-pirataria tão comum no Brasil e, em especial, nas áreas da Amazônia.


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